segunda-feira, 2 de março de 2009

Cartola (1976)


O sambista Cartola foi um dos maiores compositores brasileiros. Suas músicas foram regravadas por milhares de artistas. Talvez o marco mais famoso de tantos clássicos da música popular seja “As Rosas Não Falam”, lançado no segundo LP do cantor, auto-intitulado, de 1976. O carioca, cujo nome de batismo era Angenor de Oliveira, foi um dos fundadores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira, e passou por dificuldades na virada dos anos 1940 e 1950.

Foi salvo de um estado lastimável por dona Zica, que o levou de volta para o morro da Mangueira, da onde tinha saído para morar na favela do bairro Caju. Em 1957, o jornalista Stanislaw Ponte Preta decidiu ajudar Cartola ao encontrá-lo trabalhando como vigia e lavador de carros de moradores de Ipanema. Muitos conhecidos e admiradores do compositor achavam que ele estava desaparecido ou até mesmo morto. Daí em diante, o cantor voltou com sua carreira artística, principalmente em seu restaurante Zicartola, na década de 1960.

O som de Cartola é o melhor do samba clássico. São grandes canções de um som tipicamente brasileiro à base de violão e percussão leve, normalmente um pandeiro e não muito mais que isso. Após ter seu primeiro disco lançado em 1974, também intitulado com o nome do cantor, com músicas como “Alvorada”, o carioca voltou para registrar mais 12 composições permanentes na mente dos principais músicos do Brasil.

Um de seus grandes clássicos abre o álbum de 1976, “O Mundo É Um Moinho” tem a voz cadenciada de Cartola em meio ao um dedilhado lento de violão, tocado por Guinga, e o som contemplativo de uma calmante flauta. A letra da faixa também não deixa por menos, com uma temática sobre a vida e o amor. Um pandeiro e um chocalho marcam o tempo.

Com uma sonoridade mais dançante, “Minha” é um samba de gafieira da melhor estirpe com direito a trombone. Mais uma vez, a composição se destaca: “Minha! Quem disse que ela foi minha. Se fosse seria rainha. Que sempre vinha aos sonhos meus. Minha, ela não foi um só instante. Como mentiam as cartomantes! Como eram falsas as bolas de cristal”.

Outra grande canção é o samba cadenciado de “Sala de Recepção”, cantada em dueto por Cartola com Creuza, sua filha adotiva. Essa foi uma das faixas do compositor gravadas por Chico Buarque. E também conta com uma bela letra. A gafieira e o trombone voltam em “Não Posso Viver Sem Ela”, composta em parceria com Alcebíades Barcelos. A música fala de um amor que se foi, mas ele a quer de volta: “Pode ser que ela ouvindo os meus ‘ais’ volte ao lar para viver em paz”.

Em mais um dedilhado de violão, tocado por Dino, “Preciso Me Encontrar” conta com o grave de um fagote, executado pelo francês Noel Devos. Essa é uma das poucas músicas do disco que não foram compostas por Cartola. No caso, o responsável por criar o clássico é Candeia. Acompanhado por um saxofone, o marido de dona Zica apresenta “Peito Vazio”, uma parceria com Elton Medeiros. Confira um pouco da poesia: “Um vazio se faz em meu peito. E de fato eu sinto em meu peito um vazio. Me faltando as tuas carícias, as noites são longas e eu sinto mais frio”.

Além do trombone, o samba de gafieira ganha uma cuíca em “Aconteceu”. Aqui Cartola fala sobre amor e perdão, sem deixar de demonstrar um pouco do orgulho do homem em relação à mulher. O grande clássico “As Rosas Não Falam” é apresentado aqui em um violão, cavaquinho, percussão leve e flauta. Esta canção foi regravada por muitos artistas como Beth Carvalho, Fagner, Ney Matogrosso, Vanessa da Mata, Paulinho da Viola, Luciana Mello, Alcione e Altemar Dutra.

Cartola mostra mais um samba cadenciado em “Sei Chorar”, complementando o oitavo melhor disco da música brasileira de todos os tempos segundo a revista Rolling Stone do Brasil. Quase uma canção folclórica, “Ensaboa Mulata” conta com a participação especial novamente de Creuza. “Senhora Tentação” é a segunda faixa não composta pelo cantor, é de autoria de Silas de Oiliveira. Como em várias músicas do álbum de 1976, o trombone dá o toque especial. O disco fecha lento com “Cordas de Aço”, em mais uma bela composição de Cartola.

Não à toa, este LP de 1976, já disponível em CD, é uma das melhores gravações do País. Aqui você encontra um dos maiores compositores brasileiros, Cartola, na sua melhor forma.


Nota 9


Músicas de “Cartola” (1976)

1. O mundo é um moinho
2. Minha
3. Sala de recepção
4. Não posso viver sem ela
5. Preciso me encontrar
6. Peito vazio
7. Aconteceu
8. As rosas não falam
9. Sei chorar
10. Ensaboa
11. Senhora tentação
12. Cordas de aço

Nenhum comentário:

Destaques

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...